Hoje foi um dia difícil!

As vezes me perguntam como são os meus dias sem trabalhar e só viajar. Podem pensar que é uma farra só. Pra ser sincera na maior parte do tempo é uma grande curtição sim, mas nem sempre é assim. Hoje, por exemplo, foi um dia difícil! Sabe aquele dia que você não vê a hora que acabe? Mas todo dia difícil te traz grandes aprendizados e é bom ter esses dias para não esquecer da realidade. E foi difícil sabe porquê? Porque cair na realidade é difícil. Existem tantas coisas tão básica né para nós que nem lembramos dos outros. Por exemplo, o quão simples é pra você ir a um restaurante e escolher o que te atrai.

Saí de Siem Reap no Cambodia, uma cidade badalada e cheia de atrações para turistas, e cheguei a Battambang, que é a segunda maior cidade do País. Ingênua eu, pensei: estou indo para um lugar parecido com o Siem Reap, com muitos bares e toda pronta para o turista. Pois bem, não foi bem assim. Logo na estação rodoviária tive uma ideia do que seria a cidade. Eram mais de 60 motoristas oferendo Tuk Tuk (é o meio de transporte mais usado por aqui. É uma moto com uma especie de charrete atrás que carrega até seis pessoas)por U$ 0.50 para qualquer hotel da cidade. Isso mesmo qualquer hotel, isso quer que dizer que tanto faz a distância. Logo comecei a pensar: Meu Deus o que eles fazem com U$ 0.50? Bateu aquela dó imensa desse povo que se estapeava para pegar algum turista ainda dentro do ônibus. Eles te olham como se você fosse a última esperança deles
naquele dia. Mas de novo, eu era a sortuda que tinha um Tuk Tuk free esperando por mim arranjado pelo meu hostel.

No meio do caminho o motorista, que falava um inglês ótimo, parou um outro turista que ia à pé e ofereceu a ele um hostel por U$ 3 dólares. Isso é muito barato gente! Meio desconfiado o rapaz não acreditou muito e quase não ia. Mas aí dei uma força disse que já tinha pesquisado o hostel e que parecia muito bom, além do que Tuk Tuk era free. Foi aí que conheci esse jovem Francês de nome impronunciável.
Não sei, até agora não sei o nome dele.

Em pouco tempo eu estava ouvindo sobre a viagem incrível que ele está fazendo há sete meses. E de novo me senti a maior sortuda. O francês me disse que o budget dele é U$ 500 dólares por mês. Meu Deus! O que é isso? Meu budget é U$ 1.000 podendo estourar até 1.200, mas assim, sou do tipo que se rolar uma pressão não to nem aí e gasto mais.
Comecei a ficar chocada quando ele disse que as vezes come uma ou duas vezes só no dia. Pensei ah deve estar brincando, é óbvio. Nesses sete meses ele disse que perdeu 10 quilos. Uau!
Bom, já eram quase 5 da tarde quando chegamos no hostel depois de uma viagem de cinco horas. Eu morrendo de fome pedi um arroz frito e uma coca cola, que me custou no total U$ 3.20 dólares. Aí que fiquei chocada de novo. O francês pediu um purê de batata e eu pra não ficar feio perguntei: mas vai ser suficiente? O pior foi a resposta. Nas palavras dele. “A comida aqui é muito cara e hoje eu só tenho U$ 2.00 para o almoço e isso é a única coisa que tem nesse preço”. Juro, me segurei para não chorar. Mas no fundo fiquei impressionada como a vontade de conhecer o mundo pode te fazer viver com o mínimo possível para continuar na estrada.

Hoje acordei animada para explorar a cidade e visitar os monumentos. Mas logo de cara vi que era meio caro alugar o tuk tuk para os passeios que são a mais de 20 quilômetros da cidade. Então decidi que ia ficar na city dar umas voltas à pé, procurar uma agência de turismo para checar preços dos passeios e almoçar. Mas aí que começou a experiência mais chocante, até agora, da viagem. Nestes quase três messes de viagem estive em lugares preparados para o turista com tudo à mão para escolher.
Andando pela cidade encontrei muito pouco turista, mas muito locais levando sua vida normalmente. As crianças saindo da escola, pessoas fazendo compras de roupas, e comida. E eu à procura somente de uma agência de turismo e um bom restaurante para comer.

Em cada rua que passava havia muitos restaurantes, mas nenhum em que eu ousaria um dia entrar. Aqui em Battambang é como se o desenvolvimento estivesse apenas começando. Mas não! É a segunda maior cidade do País. Os restaurantes são precários. As comidas são preparadas quase que no chão em fogões de lenha sem muita, ou pra não dizer quase nada, de higiene. E as pessoas comendo, comendo e minha fome aumentando. Comecei realmente a sentir a realidade do povo aqui do Cambodia. Para eles, esses locais são normais.
Mas eu, afortunada turista, estava apenas procurando um restaurante a minha altura para almoçar. Algo que me custaria em torno de U$ 2.00 dólares. Meu Deus!!! O que deve passar esse povo?
Não consigo imaginar o que é ser nascido aqui e viver como eles. Muitos à espera dos poucos turistas que aparecem aqui, ah! esses os mais afortunados já que falam inglês. Outros na luta pela sobrevivência.

Depois de muito andar e pensar como esse povo é sofrido eu ainda estava à procura de um restaurante descente. Acabei parando em um hotel de 4 estrelas onde pedi logo dois pratos que me custaram U$ 5.00, e claro, não consegui comer e guardei para o jantar. Hoje foi sim um dia difícil, mas não pelo fato de não encontrar um restaurante, mas por sentir na pele a realidade desse povo que me pareceu tão sofrido mas mesmo assim se mantêm de pé. Lutando. As vezes esquecemos do quão afortunados somos e não damos a mínima para a realidade alheia. Agora estou no hostel tomando minha segunda cerveja de U$ 0.75 cada. #licaodevida #cambodiapovoguerreiro

Continuo pelo Cambodia até o final do mês. Até o próximo post!

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2 Comments

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  1. Ótimo texto, Ana. Deu pra sentir o sofrimento do povo.
    Mas como tu bem disse, tem que ter as partes ruins pra não perder o contato com a realidade.
    Continue assim e boa viagem!

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  2. Até os dias ruins se tornam uma grande experiência e tenho certeza que está valendo a pena. Boa Viagem!

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